quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Boletim 236.

ABRINDO E FECHANDO A PORTEIRA.
A lambreta 1960.
Aos 26 anos, já casado, com um filho no colo de minha Jane, retornei à Camaquã fazendo minha mudança num ônibus Frederes, e o caminhão do Zé Linguiça. Passamos a morar na residência de meu Papai, onde hoje é a Survel. Tínhamos ali uma chácara de 13 hectares no seu entorno, que se transformou na Vila Dona Thereza, em homenagem à minha Mamãe, falecida em 1948, com a pouca idade de 44 anos. Minha família na época era chamada aqui de família Imperial, por seu destaque financeiro e social, e eu chegava como policial, pilotando uma lambreta 1960, símbolo na época do transviado (não tem nada a ver com os viados...). Tinha parente que dobrava esquina para não encontrar com esse escrevente, pois eles trocavam de carro todos os anos, e agora aparecia ali um Azambuja, com o apelido de "escrivão rico", montado numa lambreta! Imagina!
São os sacrifícios que forjam o caráter do indivíduo. Eu agradeço meu bom Deus, a saúde que me deste, e a toda minha família. 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Boletim 235.

ABRINDO E FECHANDO A PORTEIRA.
Uma lição de vida.
A vida está sempre nos dando lições, mas na verdade poucos prestam atenção. Com a pouca idade de quatorze anos perdi minha Mamãe. Um desastre. Um sofrimento. Mas a vida me ensinou que aquilo não seria um tormento. Passei a morar sozinho na cidade grande de Porto Alegre, onde aprendi a transformar um sofrimento, na construção de meu amanhã. Com medo da cidade grande, adotei os livros como meus únicos amigos. De certa forma eles prejudicaram minha formação escolar, pois tinha exame no dia seguinte, e lia romances em sua véspera. Creio que certos amigos-gente ainda assim nos prejudicam. Dentro desta lição de vida, faço uma afirmação de velho: tudo se deveu a minha boa formação familiar e religiosa. Desde cedo me impregnaram de amor. Amor à Deus e aos meus semelhantes. Não creio em outro caminho, para sermos cidadãos construtores de um futuro promissor. Ao cerrar meus olhos minha último frase será: cumpri minha missão de cristão. 

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Boletim 234.

ABRINDO A PORTEIRA.
Meus medos.
Os mais graves foram meus medos quando criança. Não sabia manobrar com eles, e por muitas vezes quase chegaram no pavor. Lembro daquele pavoroso medo de morrer. Morrer por nada, sem identificação de uma doença ou acidente, pois o medo maior era de não acordar no outro dia. Pode? Felizmente aquela inexperiência infantil não me deixou sequelas. Depois, quando maduro, enfrentei muitos outros e variados tipos de medos, que foram vencidos pela firmeza encontrado na minha família. Sempre ao enfrentarmos um problema devemos ter um apoio, caso contrário iremos cair. Bueno, agora já velho continuo com meus medos. Na verdade eles não "gritam" mais em meus ouvidos (acho que estou ficando surdo), e vou aprendendo a deixá-los à distância. Vocês jovens não imaginam como é bom ficar velho. Tentem, cuidando de suas saúdes.

GALPÃO.
Uma poesia.
Sei que muitos não se dão bem com as poesias, principalmente aquelas longas, e declamadas com furor, mas quando se tem um amigo como eu tenho, Júlio Macedo Machado, que me brinda com seus versos, a gente tem de tirar o chapéu.

Lembrança do Galo Velho, na Fazenda da Sant`Anna, alma pura e soberana.
Peão campeiro e de coragem, deixou seus gritos na imagem, e na lembrança do Patrão. Galo Velho este galpão, foi feito em tua homenagem.

Este galpão tem história. Eu trago dentro do peito, onde a Paz e o Respeito,
é o lema do bom Patrão. Lareira, fogo de chão, não apaga noite e dia,       com a sua caloria, aquece qualquer peão.

Banqueta feita de couro, um cepo de cerne de aroeira. Água quente na chaleira, pra cevar o chimarrão. Caipira com limão, tem charque pro carreteiro. O Saroba é bom cozinheiro, sabe lidar num fogão. 

Agora vejam a alma do poeta, declamando em 1993 no seu aniversário, junto de um bolo de bosta, com um toco de vela acesa.


HISTÓRIAS QUE ME CONTARAM.
Marcações VIII - As marcas.
Lembro muito bem das marcações da Fazenda da Invernada. Era um carro de mão repleto de marcas de fogo! Cada posteiro tinha sua marca, pois vocês devem lembrar que os posteiros tinham direito de criar no campo do patrão. A esposa tinha sua marca, assim como o filho mais velho, que na época era chamado de primogênito, cabendo a ele mais destaque que aos demais. O vizinho, que era irmão, deixava sua marca, caso algum animal seu ali entrasse. Costumavam marcar animais para doações, e assim outras que não recordo. Moral da história - o gado vacum valia muito pouco ou nada, sendo seu couro muito valorizado, pois o plástico ainda não entrara no mercado. Meu Papai mantinha uma montanha de saco de sal grosso, que era mais para a salga da carne, os famosos charques de vento (no nordeste eles chamam charque de Sol), mas parte dele se destinava à salga do couro, que era vendido para as "barracas" quando de sua busca, não só do couro, mas da graxa e lãs.

FECHANDO A PORTEIRA.
Do boletim 39...Repetindo, mas não é falta de assunto!
Sexo.
Deixei para o final porque poucos de vocês chegam até aqui. Sei que vou me quebrar com a maioria, mas fui falar em Sodoma e Gomorra no outro boletim e o assunto ficou bailando. Assim, vou me referir a sexo, que desde milênios é atual e polêmico. Começo com uma sentença: tenho 52 anos de felicidade conjugal (hoje 58 e reafirmo o que está escrito)! Então aceitem meus erros, mas não deletem sem refletir.
Sexo é uma necessidade fisiológica. Nada mais. Além, lógico, da perpetuação da espécie. Não permitam que ele tome conta de vossas vidas. A vida moderna tem alterado nossos hábitos, com a tv e o computador enchendo espaço e mais espaço com sexo. Não entrem nessa. Façam equilíbrio das atividades sexuais, e principalmente não a exterminem, pois tudo que esgotamos – se acaba! Sei que a imaginação é infinita, mas também sei que ela acaba no trato da coisa física. Confesso que durante toda minha feliz vida conjugal só fiz “papai e mamãe” com minha esposa (só espero que ela não leia isto, e nem que vocês contem para ela, pois não gostará de eu ter revelado nossa intimidade). Muitos dirão: “Mas que idiota, não sabe o que perdeu”. Respondo: “Nunca esgotamos nossas imaginações, que só vivenciaram o amor, nas carícias de respeito, usando muito mais o coração do que o próprio corpo".
Na minha filosofia maçônica está escrito, que três são os vícios que destroem a alma humana: Orgulho, Ócio e Volúpia. Pensem nisso...


sábado, 25 de julho de 2015

Boletim 233.

ABRINDO A PORTEIRA.
As chuvaradas.
Aqui parece que as coisas não evoluíram nada. Lembro de sessenta anos passados, quando não tínhamos estradas para chegar na Vila. Verdade que as enchentes não tinham fim, pela falta dos drenos, que hoje existem, mas as estradas continuam não existindo. Fico assustado por não conseguirmos chegar nas granjas. Sessenta anos se passaram! Depois querem que o campo produza mais e mais, para matar a fome de uma população que não pára de crescer. Não lembro de quem disse: Destruam as cidades e deixem os campos intactos, que as cidades se reerguerão. Destruam os campos, que as cidades perecerão. Uma verdade que será eterna. 

GALPÃO.
Penca do N.C.C.C.C. (um escrito esquecido).
                    Dia vinte e três de maio de 2004, nas barrancas do Rio Camaquã, no Passo da Pacheca, aconteceu a Primeira Penca de Cavalos Crioulos Puros, organizada pelo Núcleo de Criadores de Cavalos Crioulos de Camaquã (N.C.C.C.C.). O palco foi a perfeita cancha reta do local, na boa organização e, na salutar amizade dos crioulistas que registramos: “Lote”, nascido Roberto Crespo; “Dado”, nascido Luiz Eduardo Centeno; “Teteco”, nascido Carlos Antônio Oliveira; “Castiano”, nascido Luis Mário Azambuja;  “Toni Blair”, nascido Rubem Carlos Serafini Machado, “Porquinho”, nascido Juliano Röedel, Elder Longaray; Rodrigo Machado, Marcos Coutinho e Cristiano Martins, com uma plêiade de amigos ao redor.
                   Os animais inscritos: Roseta da Sant´Anna, de Luis Mário Azambuja; Jornada da Nascente, de Luiz Eduardo Centeno; Garoa da Nascente, de Luiz Eduardo Centeno; Onça do Capão Grande, de Rodrigo Machado; Gavião do Itapevi de Daruiza Oliveira e, Chispa da Capororoca, de Marcos Coutinho.
                  Os julgadores foram Lauro Vargas e Ariovaldo Arena. Apareceu um alemão esperto e ágil, coisas raras nesta raça, que foi o desenvolto leiloeiro. O Penqueiro do encontro foi o N.C.C.C.C.
                   Os finalistas foram: Roseta que derrotou o Gavião. Garoa que derrotou a Onça e, Jornada que derrotou a Chispa. Quando na disputa do terno final, saiu vencedora a égua Jornada da Nascente, do alegre Dado, fazendo a festa crioulista. A égua Roseta da Sant`Anna, do Castiano, chegou em segundo lugar, e em terceiro a Garoa do Nascente, também do Dado.
                   Um lindo e poético local. O grande Rio, o barranco alto e a verde mataria, moldurando o agitado dos parelheiros, e o nervoso dos tratadores e jóqueis. Uma pulperia fazia a alegria do lugar, no comando da Dona Cici, que indiferente à idade, se agitava no serviço doméstico, atendendo aos amigos com fidalguia. Até mesmo o “relampiar de um osso”, na improvisada cancha, em mãos de jogadores pouco experientes. Mas, sobretudo um momento de profunda contemplação, quando da necessidade da “casinha”. Na pressa da construção não houve tempo de colocar a porta da frente, virada para o grande rio. Então, naquele trono de igualdade e meditação, se ouvia o cantar dos pássaros, e lá embaixo o correr forte do caudaloso Camaquã, como querendo marcar o tempo. O tempo das carreiradas dos fins de semanas, nas canchas retas das amizades. Ali era momento de se confraternizar, festejar encontros e comemorar aniversários, como o da Majô Chagas Azambuja no dia de hoje, entre seus amigos crioulistas. É necessário viver, e por tal, foi com alegria que se constatou Centenos e Crespos matando a sede com refris. Só um Azambuja manteve o atavismo da raça, saudando os antepassados no líquido alegre da vida, ou da morte se não souberem bebê-lo. 

Um julgador atento à chegada dos parelheiros.
                   
HISTÓRIAS QUE ME CONTARAM.

Marcações VII.
Retorno àquele escrito, quando a peonada matava a fome com a carne de uma novilha. Certamente não seria das grandes, e provavelmente uma mamona, pois eles não precisariam de tanta carne assim. Porque uma novilha? Ainda hoje persiste a crença de que a carne da fêmea é melhor que a do macho, mas aqueles que conhecem a lida campeira, sabem que macho é desfrute certo, e dinheiro no bolso. Fêmea é descarte. Isto num outro tempo. Não esqueçam que sempre estou falando de outro tempo. Hoje a fêmea toma respeito. Parece que isso começou com as mulheres. Na verdade a raça está se "apurando", e assim tudo passa a ter valor. Então minha gente, quando quiserem fazer um churrasco na estância, por vezes é melhor comprar no açougue, do que fazer uma carneada em casa, com tanto estrago. Estrago dos mocotós, cabeça, couro, e toda a "miudama". Para não falar naquela trabalheira danada, e ter de presentear os "operadores". Estamos vivendo outro tempo, mas afirmo, muito melhor. Evoluímos.


FECHANDO A PORTEIRA.
Muita escrita para pouco tempo de leitura. Vou melhorar.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Boletim 232.

ABRINDO E FECHANDO A PORTEIRA.
O dia do Amigo.
Homenageando uma Amiga, no seu dia, tive a oportunidade de me manifestar na reunião do meu clube de Rotary, quando dei um testemunho de vida. "Há 58 anos passados, eu e minha Jane batemos o olho um no outro, e foi aquela 'paixão'. Passado alguns anos transformamos aquele sentimento em puro 'amor', que constituiu nossa família, alicerçada no respeito e dignidade, que embalou nossos filhos e netos. Hoje, tanto tempo passado, podemos dizer que aqueles dois sentimentos deram lugar a um terceiro, que é a pedra angular de Rotary e de família - a 'amizade'. Assim, aqui presto minha homenagem à minha esposa Jane, amiga para sempre. Infelizmente não sei dizer quando é sempre!"  



1957 - Recebendo a bênção. Obrigado Senhor. 

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Boletim 231.

ABRINDO E FECHANDO A PORTEIRA.
Sucessão.
Não conseguimos nos desprender das coisas terrenas. Elas têm seu encantamento, e nos proporcionam imensos prazeres, e por tal queremos ser donos das mesmas. Entretanto, nada nos pertence. O que devemos é desfrutá-las, sem o apego. Difícil. Muito difícil. Quando entendemos que o tempo ficou gasto, passamos a olhar o outro lado da vida, pois ela não tem fim. Assim olhei para minha neta Fernanda, hoje assumindo meu Galpão do Galo Velho, transmitindo a ele seu carinho, na busca da Paz e Respeito. Olhem:
Apparício da Silva Rillo nos brindou com o verso "Sucessão", que creio estar re-publicando, mas nele devemos meditar:

"Ser não é ter sido, ou perceber-se na estampa dos retratos dos avós. É estar além dos vidros das molduras, numa projeção muito além do próprio ser. Guardo armas no íntimo armorial, brasão de sangue do meu velho clã. Minhas batalhas são as véspera de hoje, na projeção imprevisível do amanhã. Ter sido também não é ser, ou apegar-se ao veio e as raízes dos avós. É ser a rama que brotaram deles, para dar sombra aos que virão de nós." 

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Boletim 230.

ABRINDO E FECHANDO A PORTEIRA.

A esperança.
O campo, o verde, e a esperança que é infinita. Depois de escrever a frase, fiquei matutando. Esperança é um sentimento de fé, na certeza íntima de que o desejo será alcançado. Ela faz parte das três virtudes teologais. Começa por "espera", e só quem sabe esperar, alcança. Assim somos nós cristãos, que cremos numa vida eterna, e somente aquele que se aproxima do seu fim, aprende a esperar. Não há mais pressa, o tempo é curto, e ficamos esperando por um outro tempo, pleno de vida serena. Ninguém quer deixar esta vida - claro, quem é jovem não deseja sair daqui, certamente por medo da outra vida estranha, mas quem é velho perde o medo, sabendo que soube cumprir com seu "dever de casa", e não terá receio algum de prestar contas do que fez nesta vida terrena. Deixemos o tempo passar, ele não nos mata, nos o levaremos conosco.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Boletim 229.

ABRINDO E FECHANDO A PORTEIRA.
Eu não quero chorar!
Carregamos nossos subconscientes com esta negativa, sem nos darmos conta que é bom chorar. Acredito que muitas pessoas represam seus sentimentos, lógico que os sentimentos bons, sem perceberem a necessidade deles derramar. Antigamente isso era machismo, mas hoje são as mulheres que tomam conta. O mundo está impregnado de iras, violências, atentados, estupros, roubos, numa verdadeira inversão de bons sentimentos, fazendo com que contenhamos nossas lágrimas, até mesmo ao assistir o namoro de duas borboletas. Precisamos chorar, não pelo sentimento do medo, mesmo para quem se aproxima do seu fim. Precisamos chorar pelo conteúdo maior, de termos adquirido a grande riqueza do amor. Quem chora ama! Quem chora não é egoísta! Quem chora tem Deus no coração!

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Boletim 228

ABRINDO A PORTEIRA.
 
O perdão.
Certamente já abordei o tema, mas como ele é uma das virtudes humanas, por tal é essência de vida. Já escrevi em algum lugar que não existe virtude fácil, todas elas são de difícil execução, e certamente o perdão é uma das mais difíceis. Minha religião católica tem me dado ótimos ensinamentos  sobre o perdão, como por exemplo, aquele de ofertar o outro lado da face, o que ainda não aprendi. O perdão faz bem para quem perdoa, pois o perdoado nada recebe em troca, principalmente se não dissermos a ele que o perdoamos. Como é bom quando a gente esquece uma ofensa recebida. O revide, razão de tanta guerra mundo à fora, é provocado em razão do não perdão. O revide, por maior que tenha sido a surra no outro, só irá fazer mal para aquele que revidou, pois um dia teremos de prestar contas de nossos atos.
 
GALPÃO.
O cachorro.
Não creio em uma fazenda sem cachorro hoje em dia. Além de ser o melhor amigo, ele é o melhor dos guardas, principalmente durante a noite, pois parece que não dormem nunca. Antes de ser apelidado de Galpão do Galo Velho, ele se chamava Galpão dos Bichos, pois meu Papai criava muita ovelha, e muito guacho foi ali criado, além dos muitos cachorros, gatos, no equilíbrio dos ratos, corujões de orelhas, cavalos encocheirados, vacas de leite, e outros bichos, pois o galpão não tinha porta. Agora olhem a pose gauchesca do namorado de minha neta, namorando o galpão:
  
 
HISTÓRIAS QUE ME CONTARAM.
 Marcações VI.
O rodeio está cerrado, e é ainda muito cedo da manhã. Convido vocês para continuarmos a navegar. Qual a primeira preocupação? Ela é a mais velha de todas as preocupações: o que vamos comer? Era muita gente, já falei em coisa de trinta viventes. Qual o pão daquelas pessoas? Carne. Então do rodeio saía uma novilha, para ser laçada, carneada, espetada, enquanto outros faziam fogo forte numa capoeira de mato ali por perto. Faca minha gente era o computador de hoje, e como eles manobravam a danada! Até os espetos elas fabricavam. Sem faca morreriam de fome, como os jovens hoje morreriam de tédio sem o computador. Ainda navegando, tenho absoluta certeza, que aquele serviço pesado era prazeroso, principalmente porque eles não tinham qualquer outro problema, o que hoje chega a tirar nossa alegria de simplesmente viver. Enquanto a maioria seguia no serviço da marcação, outros preparavam o almoço, que era somente carne, e gorda, sem outro acompanhamento, do que um trago de canha, que essa sim, dava para carregar nos arreios.  

 
 
FECHANDO A PORTEIRA.
 
Nossos lares.
Creio que já escrevi lá atrás não encontrar definição para ele. Parece por vezes que é tudo, nada mais importando, mesmo que sejamos apenas dois velhos, num lar sadio, cheio de esperanças. Foi assim que retornamos à ele, depois de mais uma hospitalização.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Boletim 227

ABRINDO E FECHANDO A PORTEIRA.
 
Os balaqueiros.
Conheci vários ao longo da minha longa jornada. Todos eles repletos de orgulho, e os orgulhosos não têm alma. Se alguém me perguntar o que é alma, vou dizer que é aquilo que existe depois do fim. Assim é que tenho me expressado no decorrer destes boletins, insistindo que o fim não existe. Mas vou voltar aos balaqueiros. Interessante que o meu dicionário está grifando a palavra, e fui buscar em outros dois e não a encontrei. Será o balaca um termo regional? Bem, mas os balaqueiros, queriam ou não os dicionaristas, são todos perfeitos, não erram nunca, são os mais lindos, são verdadeiros ídolos (para eles, lógico), e entendem que só eles é que existem, por tal é que não têm alma. Alma não nos pertence, pertence à Deus.
Essa reflexão me ocorreu, porque lembrei de um grande amigo, que foi o rei dos balaqueiros, e certamente anda por aí no etéreo, procurando por ele mesmo. Tomar que tenha se encontrado, pois era uma boa pessoa, apenas, balaqueiro. 

domingo, 14 de junho de 2015

Boletim 226.

ABRINDO A PORTEIRA.

 Café Aquários - Pelotas.
Deveria ser chamado "O coração de Pelotas". A foto foi tirada a esmo, sem outra pretensão, além de guardar o momento, onde tomei do seu excelente café, que me fez lembrar daqueles de minha Mamãe, passado no saco de café. Nada de modernismo, eles mantém a tradição. Depois foi ouvir a conversa de três velhos pelotenses falando de tempos passados, contando das carruagens, e riquezas da época, pois Pelotas foi sem sombra de dúvidas, a cidade mais rica do nosso Rio Grande do Sul. Seus filhos estudavam em Paris, e ao retornarem trajavam diferente, com elegância requintada e primorosa educação. Não podia dar outra, seus conterrâneos invejosos lhes deram o pior dos apelidos. Prestem atenção na foto tirada a esmo, e notem que ainda hoje eles portam certa elegância. Adoro Pelotas, hoje morada de meus netos, que ali aprimoram seus estudos.
 
GALPÃO.
 
Posto da Fazenda da Quinta, num ano que perdi, mas foi na década de 70. Sentado o meu saudoso e querido tio Adolfo Azambuja, irmão do meu Papai. Ele havia me pedido a foto, para guardar a lembrança dos dois velhos que lhe rodeiam, o da sua esquerda meu Galo Velho, de onde recortei a foto que enfeita meu blog. Pois os dois velhos guardaram a sua lembrança, vindo ele a falecer pouco tempo depois.  
  
HISTÓRIAS QUE ME CONTARAM.
 
Marcações V.
Se navegar é preciso vou dar uma navegada. Vamos usar a imaginação, onde projeto 20 ou 30 peões naqueles momentos de marcação na Fazenda da Quinta. Digo isso por conhecer as instalações que ainda hoje existem, em ruínas é verdade, as quais abrigavam os campeiros. Vários quartos, salão de fogo de chão e de chão batido, muito grande, onde facilmente poderiam dormir nos pelegos. Além deles tinha os da Casa Grande, patrão, capataz (que era o filho mais velho) e outros filhos e amigos, pois todos encilhavam e dividiam parelho o trabalho com a peonada. Estou navegando nos primórdios do século XX, quando o arroz ainda não havia amanhecido. Tudo era pecuária. Uma pecuária insipiente onde os urubus viviam em bandos, tamanho eram os seus banquetes nas várias carniças. A cavalhada era a grande riqueza, naquele tempo de revoluções e guerras entre irmãos. A Fazenda da Quinta tinha tanto cavalo, que foi necessário matar grande parte à tiros (fato já relatado em boletins anteriores), quando após 1932, última revolução à cavalo, os bovinos passaram a ter valor, com os campos sendo drenados para a lavoura de arroz, transformando os banhados em verdadeiras pradarias.
Já vou soltando das redes, com a promessa de voltar ao tema. 
 
FECHANDO A PORTEIRA.
Já falei que meu cavalo anda solto das patas, e pouco atende das rédeas.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Boletim 225.

ABRINDO A PORTEIRA.
Lembranças.
Temos lembranças boas e ruins. Outro dia fui assaltado por uma lembrança boa, muito boa. Claro, todos nós temos isso de quando em quando. Fiquei matutando nas outras muitas e muitas lembranças boas que esqueci. Esqueci. Cheguei a esquecer daquelas de minha Mamãe, que perdi aos quatorze anos de idade. Sabem de uma coisa, creio que é bom a gente esquecer das lembranças boas, elas doem. Conheço gente que se alimenta de lembranças. Imaginem remoer todos os dias as lembranças ruins.
Esqueçam! Vivam o presente!

GALPÃO.
O pealo.
Nunca pealei, Certamente por ter sido pealado há 58 anos, por uma linda prenda que não me sai dos costados. O pealo é uma arte muito difícil, primeiro porque tem de ser executado bem próximo do animal que passa correndo na sua frente. Depois jogar o laço com tal habilidade, que deve prender suas duas mãos, quando então com um tirão, ele é jogado ao solo. Abaixo fica a foto de um pealo feito pelo Maneca Terra, lá num rodeio da Sant`Anna, no ano de 1984. Maneca está atrás do boi charolês, e pode-se notar a armada do laço na frente de suas duas mãos.
 
HISTÓRIAS QUE ME CONTARAM.
 As marcações IV.
Agora estamos com o rodeio cerrado. Não consigo projetar o número de animais, assim como o número de campeiros para mantê-lo fechado, mas eram muitos. É necessário entender que estes rodeios necessariamente não eram só para as marcações, pois também se destinavam ao aparte dos animais gordos para descarte às charqueadas. Aqui em Camaquã na foz do Rio Camaquã tínhamos uma grande charqueada, de Hildebrando José Centeno, com mais de 500 empregados. Mas vamos ao rodeio. O patrão, juntamente com o capataz entrava no meio do gado para suas apreciações, e com dois outros empregados experientes, determinava a ordem dos animais que iriam "sair" para serem marcados, ou apartados. No aparte eles formavam um outro pequeno rodeio, pois iriam para a mangueira da fazenda. No caso da marcação, não havia pealo, eram laçados pelas guampas ou pescoço, e depois outro peão colocava laço na pata, ficando imobilizado. Quando o laço pegava só uma pata, ele ficava em pé, sendo necessário um peão dar um forte puxão no rabo para ser derrubado, permitindo assim o serviço.
Obs. - Esta história me foi contado pelo meu Papai, que morreu há quase quarenta anos, então pode perfeitamente haver alguma falha de memória.  
FECHANDO A PORTEIRA.
Não consigo. Ando linguarudo. Desculpem.


quarta-feira, 27 de maio de 2015

Boletim 224.

ABRINDO A PORTEIRA.
 
Amor e Admiração.
Outro dia um amigo, um grande amigo, me disse que não existe amor sem a admiração. Fiquei matutando. Não posso afirmar, mas acho que temos um arquivo, desses dos computadores, em alguma parte de nossos cérebros, que guarda o amor, ou o ódio, que recebemos na vida. Então quanto mais recebemos, mais temos para dar. Assim posso amar um paraplégico e meu estranho, como posso odiar um parente ou amigo.
A técnica desta área não me pertence. Estou falando apenas com o coração.  
 
GALPÃO.
 
Madrugada.

 (foto da Internet)
 
Escrevi a história abaixo em primeiro lugar, e fiquei com a madrugada na cabeça, lembrando de uns belos versos do Apparício Silva Rillo:
 
No poncho morno das cinzas, dorme o fogo de galpão, e ao escasso calor de seus carvões, a cuscada se entrevera com os peões, partilhando uma sobra de pelego.
- Vai pro diabo excomungado!
Enquanto o gaipeca se amoita pra outro lado, fazendo volta e meia, um peão vai bombear se já clareia a barra vermelha da saia do céu.
- Tá na hora pessoal!
Lava a cara na gamela de água fria, enxuga as mãos ao comprido da melena, enche o porongo, atiça o fogo e grita pra um índio mais dorminhoco:
- Levanta cara de loco!
Enquanto a cambona chia, coberta de picumã, emponchada no brilho da alvorada, boleia a perna a Dona Madrugada, pra abrir a cancela da manhã.

 
HISTÓRIAS QUE ME CONTARAM.
 
As marcações III
 
Vou retornando as histórias do meu Papai, para ver se as termino.
 
Dia de marcação era verdadeiramente um dia comprido, tanto que ele começava as quatro horas da madrugada, quando a carne já estava assada no fogo de chão, e acompanhada de um café de chaleira. O pão daquela gente era a carne. A cavalhada dormia toda na mangueira redonda, que hoje chamam de redondel, com a diferença que aquela era muito grande, e essa eu conheci, era de pau à pique. A cavalhada ao grito de "forma, forma" se posicionava com a cabeça virada para o centro, e a anca colada na mangueira. Uma técnica, que permitia os muitos campeiros, reconhecerem as suas montarias pela cabeça, já que a noite era um breu. Aliás, cabeça é uma coisa que não tem duas iguais, só a dos gêmeos, e eu não conheço cavalo gêmeo. Encilhados era hora de bolear a perna, e sair campo à fora para a recolhida do gado. É necessário focar as grandes distâncias. Uns tinham de sair na frente, para buscar o gado mais distante, enquanto outros buscavam os mais próximos. Aí surgiu o apelido do meu Galo Velho, que sempre recolhia os mais distantes, e os mais próximos diziam: Vamos começar, pois o Galo Velho gritou. Era uma técnica (aquela gente antiga também tinha técnica, viu Dr. Magrinho!), para que no rodeio chegassem todos mais ou menos juntos.  Meu Papai dizia que o Cristino tinha um grito especial, que nunca fora imitado por outra pessoa.
 
Soltei das rédeas. Vou terminar outra hora...  
 
FECHANDO A PORTEIRA.
 
Eu sei. Sou um conversador, e metido a escrevinhador. 

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Boletim 223.

ABRINDO A PORTEIRA.
 Cachorrada.
Não sei porque o dito popular, "fizeste uma cachorrada". Cachorro é sabido o melhor amigo do homem, então não pode fazer cachorrada. Agora minha vivência.
Moro em um edifício cercado de boas casas, na sua maioria de fazendeiros. Nada mais natural que eles tragam para a cidade os seus  cães, como guarda de suas moradas. São tantos, e de diferentes tons de latidos, que passei a prestar atenção nos seus significados. Um late chorando, certamente de saudade de sua mãe e irmãos. Outro late desesperado, de saudade de sua liberdade, e assim vou identificando seus "linguajares". Agora chegou um novo cão vizinho, num pátio dois por três, que late brabo, num linguajar forte, rouco, contínuo. Custei um pouco, mas terminei identificando, ele late raivoso com seu dono amigo - "que cachorrada fizeste comigo".
 
GALPÃO.
Meu chão sagrado.
Vocês não reparem, mas sinto muita saudade do meu galpão. Hoje mesmo estive lá, e nem consegui chegar nele, de tanta correria. Este mundo anda cão (olha aí outra injustiça com os coitados). Então, colo uma foto abaixo, com meus dois filhos amigos, numa churrascada, com égua encocheirada, chaleira preta, bota secando ao fogo, uma chairada, e a paleta de um cão, num momento de 30 anos passados. Como é lindo assistir a vida passar...
 
 
 
 
 
HISTÓRIAS QUE ME CONTARAM.
 
Reproduzo o que recebi de um grande amigo.
 
A Estranha.
Quando nasci meu pai conheceu uma estranha, recém chegada em nossa pequena cidade, ficando fascinado por ela, tanto, que a convidou para viver conosco, e até hoje vive lá em casa.

Meus pais eram professores e me ensinaram a obedecer, mas a estranha era nossa narradora. Mantinha-nos enfeitiçados por horas com aventuras, mistérios e comédias, sabendo tudo de política, história ou ciência.

 Conhecia o passado, o presente e até predizia o futuro!
 Levou minha família ao primeiro jogo de futebol. Fazia-me rir, e me fazia chorar. A estranha nunca parava de falar. Meu pai não se importava. Minha mãe se levantava cedo e calada, crendo mesmo que ela tenha rezado, para que a estranha fosse embora. Fomos criados com certas convicções morais, mas a estranha não as obedecia, fazendo meus pais se ruborizarem.

Meu pai nunca nos deu permissão para tomar álcool, mas a estranha nos ensinou a tenta-lo, assim como nos mostrou o inofensivo do cigarro. Falava livremente sobre sexo, com comentários vergonhosos.

Agora sei que meus conceitos sobre relações foram influenciados fortemente durante minha adolescência, pela estranha.

 Passaram-se mais de cinquenta anos desde que a estranha veio para nossa família. Desde então mudou muito, e já não é tão fascinante como era no princípio.
 
Não obstante, se hoje você pudesse entrar na guarida de meus pais, ainda a encontraria sentada em seu canto, esperando que alguém quisesse escutar suas conversas ou dedicar seu tempo livre a fazer-lhe companhia...
Seu nome?
 Bom... nós a chamamos
TELEVISÃO. Agora ela tem um esposo que se chama Computador, e um filho que se chama Celular..

 
FECHANDO A PORTEIRA.
Prometo e juro que no próximo não escrevo tanto.


domingo, 10 de maio de 2015

Boletim 222.

ABRINDO A PORTEIRA.
 
Mamães.
 
Fica fácil escrever sobre elas, principalmente quem a perdeu criança como eu, numa saudade que não é mais doída. Mamães vocês são abençoadas pela Virgem Maria, na concepção perene do amor, onde não há sacrifícios, na superação da própria dor. Vocês serão para sempre amadas, mesmo que por vezes não sejam respeitadas. Não há como rasgar o teu gesto da maternidade, que deu origem a nossa própria vida. Mulher, tu que ainda poucos anos, vivias só para a maternidade e criação de teus filhos, hoje projetas o respeito, na busca de uma vida digna, e na difícil conquista da igualdade. Nós homens, que te olhamos mais como uma conquista sensual, respeitamos o teu olhar, que nos vê como companheiro e pai de teus futuros filhos. És verdadeiramente o equilíbrio do lar.
 
  
GALPÃO.
 
Balbino Marques da Rocha escreve assim:
 
... e hoje esta moçada culta traz a marca do progresso, mas no fundo, no recesso, da alma da nossa gente, a ausência dói de repente, e a gente volta ao passado, num GALPÃO enfumaçado, entre gaitas e floreios, no compasso de payadas, volta o ruído dos arreios e o tropel de cavalhadas...
 

 
 
 
 
 
HISTÓRIAS QUE ME CONTARAM.
 
As marcações II.
 
Agora realmente a história que meu Papai me contava das marcações campo à fora, ou de rodeios. Primeiro é necessário focar a época. Os campos não tinham aramados que os cercassem. Conforme o tamanho das fazendas havia vários rodeios, todos com suas designações. Na Invernada lembro: Rodeio da Carniça; na Quinta lembro: Rodeio da Figueira Caída, e assim muitos outros. O gado era verdadeiramente "alçado" (selvagem), pois havia pouco, e um mau contato com o ser humano, pois tudo era na força do cavalo e do braço. Já falei em boletins anteriores, que em cada rodeio destes havia um Posteiro, homem de confiança, residente no local com a família, e que evitava a saída do gado de patrão para o campo do vizinho, recorrendo seu rodeio e conferindo se estava tudo bem. Era tudo ermo, sem outro acesso que não fosse à cavalo ou de carroça, pois não havia estradas.
Como prometi não escrever muito, vou deixar o "exercício" do rodeio, para o próximo boletim.
 
FECHANDO A PORTEIRA.
 
Um beijo no coração da minha Jane, Mamãe de meus dois queridos filhos.

domingo, 3 de maio de 2015

Boletim 221.

ABRINDO A PORTEIRA.
Aniversários.
Data que procuramos marcar com amor. Data que tentamos juntar os familiares e amigos, para uma comemoração qualquer. Na verdade hoje não conseguimos juntar muita gente, andamos esparramados num mundo que cresce a cada dia. No meu último (claro, o que passou, pois irá se passar muitos outros...) após uma breve oração, com as mãos dadas ao tremular a luz de um toco de vela no centro, pedi para fazer um discurso:
"Vocês buscam me fazer feliz. Vocês e aqueles que não estão presentes. Dois filhos, três noras-filhas, quatro netos, dois futuros bis-genros (sei, a palavra não existe), e muitos e muitos amigos. Saibam no entanto que vocês todos me fazem feliz nos 365 dias do ano, e nas suas 24 horas, mesmo estando distantes de mim. Isto porque sei da conduta social de todos vocês, no desempenho ético de suas profissões, no zelo amoroso familiar, na conduta correta social, na dedicação ao estudo escolar, e no amor que cresce com a bondade habitando o coração de todos. Obrigado por vocês me fazerem gente". 
GALPÃO DO GALO VELHO.
Teu lume.
A tradição de teu lume aceso dia e noite fica cada vez mais difícil, como difícil é a habitação da residência do fazendeiro lá no campo. Primeiro porque não temos estradas. No verão é o trânsito dos caminhões, que hoje são enormes carretas, e no inverno nem é bom falar. Assim pouco aquento o teu lume, bebendo a fumaça das chamas vivas, de cernes de eucaliptos plantados por meu Papai. A foto abaixo já foi publicada, mas é nela que minha imaginação viaja ao cepo rústico junto do fogo de chão de meu galpão.
HISTÓRIAS QUE ME CONTARAM.
As marcações.
Essa história eu conto:

Não vou me reportar as marcações campo à fora, ou de rodeios, porque não as conheci, apenas ouvi contar. Conto as marcações de mangueira quando ainda não haviam inventado os tais de bretes, e era sempre no mês de maio. Mangueiras grandes e de pau à pique, com uma só porteira de varas de correr, onde se penduravam couros vacuns para "espantar". Depois do gado emangueirado se formava duas filas de campeiros, a direita e a esquerda da porteira, ficando os guris e os maturrangos logo na saída, enquanto os verdadeiros pealadores ficavam no final, pois por eles nada passava. Dois peões entravam a cavalo na mangueira e soltavam os terneiros, um a um, todos taludos, até sobre-ano. Derrubado com o pealo, um dos mais fortes pegava da cabeça que era torcida, outro apertava o vazio com o joelho, enquanto outro colocava um laço na pata e esticava. Vinha logo o grito: "Olha a marca marqueiro!" Enquanto ela chegava, aquele que apertava o vazio castrava se fosse macho, outro assinalava na orelha e aparava a cola. Se a marca não estivesse quente, o marqueiro gritava: "Aperta manheiro". Isto porque marca em brasa não precisa ser apertada. Cenas que assisti criança na Fazenda da Invernada, de meu Avô Ney Xavier de Azambuja.
FECHANDO A PORTEIRA.
E eu havia prometido não escrever muito... 





quinta-feira, 30 de abril de 2015

Boletim 220.

ABRINDO E FECHANDO A PORTEIRA.
 
 
Escrever demais.
 
Creio que tenho alguns bons leitores do Galo Velho, porque escrevo de menos. Na Zero Hora de ontem a Martha Medeiros escreveu um inteligente artigo sobre os textos muito longos, citando um artigo de Wagner Brenner, onde afirma que ninguém consegue ler textos extensos. Confesso que quando recebo e-mail de amigos que escrevem muito, a primeira coisa que busco é saber o tamanho, e conforme, não leio. Não temos mais tempo, e quando temos gastamos nas redes sociais, onde a escrita é sintetizada, até mesmo nas palavras, que são em hieróglifos.
No meio de tudo isto fica meu escrito galponeiro, querendo traduzir filosofia de vida, baseada numa criação antiga, transmitindo Paz e Respeito àqueles que perdem pouco tempo em lê-los.
Prometo continuar "escrevendo de menos".
Ah! Não esqueçam amanhã é Dia do Trabalho, não trabalhem...

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Boletim 219.

ABRINDO E FECHANDO A PORTEIRA.
Detalhes.
A mim parece que eles só servem para a poesia do Roberto Carlos. De que servem os detalhes? Para enfeitar, além de inspirar a poesia. Conheço muitos que se perderam nos detalhes, que nada mais são do que pequenas coisas, na maioria das vezes, coisas insignificantes.  Na vida temos de focar o principal. Claro que se for possível devemos colocar detalhes, mas eles ficarão sempre em segundo, terceiro, ou sexto plano. Alguém me dirá, mas eu construo em cima de detalhes! Afirmo que só os artistas o fazem, e eu não estou falando em arte, falo em vida.

domingo, 12 de abril de 2015

Boletim 218.

ABRINDO E FECHANDO A PORTEIRA.
 
A Ética.
 
Recebi do amigo e Irmão Cony um belo e-mail, com uma entrevista do Dr. Mário Sérgio Cortella, que publico abaixo, bastando vocês clicarem sobre ele.
Esse assunto da ética é uma de minhas paixões (depois da Jane). Já escrevi muito sobre ela, eu que não sou formado no tema, mas medito muito sobre ele. Só creio nos éticos. Vejam o desastre do nosso Brasil! Sei, tudo é uma questão de educação e cultura, e que o nosso País está fora deste contexto, mas a cadeia aplicada nos poderosos irá assustar muitos interessados na falta de ética.
O Dr. Mário em sua palestra cita Immanuel Kant, com sua frase antológica, de como ser um cidadão ético:
"Tudo que não puderes dizer como fez, não faça!"
Daí meus amigos, vamos ver os depoimentos dos ladrões lá no "Lava Jato", de como eles "fizeram", na esperança que possamos chegar no "Cérebro" da artimanha.

Vocês perdoem. Postei a mensagem do Dr. Mário, que terminei deletando, por não conseguir adicionar o som. Outro dia, pois o que vale é a frase de Kant. 
 

 


terça-feira, 7 de abril de 2015

Boletim 217.

ABRINDO E FECHANDO A PORTEIRA.
 
Quem sou "eu".
 
Fui falar do "tu", pois chegou a hora de falar do "eu". Começo afirmando que somos completamente diferentes. A diferença não estará em nossas caras ou em nossos tipos, mas nos nossos comportamentos, que é reflexo daquilo que carregamos no interior. Nem mesmo entre os mais de 6 bilhões de terráqueos existe igualdade interior, seja física e psicológica. Se nossas diferenças está em nossos interiores, peço que reflitam no que escrevi no boletim 215, "sentindo o pulsar de alguém mais dentro de mim". Será esse alguém, o mesmo que habita o interior de todo mundo? Passei uma existência (80 anos) sem essa interrogação, e somente agora no final de carreira, busco por este "ser pulsante", na tentativa de saber "quem sou eu". Depois certamente restará outras perguntas, como "qual a minha missão". Certamente que não devemos viver inutilmente, apenas comendo, dormindo, reproduzindo, ou debruçado na janela deixando a vida passar. Viver é fácil. Vir ao mundo, e sair deste mundo é que fica difícil, mas justamente aí deve residir a beleza do viver.
Nesta busca de me encontrar tenho "conversado" muito comigo mesmo, num diálogo bonito, por vezes áspero, mas sem conclusão. Sei que concluirei, nem que seja no último ponto final. Vamos viajar juntos...

terça-feira, 31 de março de 2015

Boletim 216.

ABRINDO E FECHANDO A PORTEIRA.
 
1º de abril.
 
Claro, o Galo Velho é uma página séria, e não irá postar mentiras. Apenas copio o que está escrito na Wikipédia:
 
Há muitas explicações para o 1 de abril ter se transformado no dia da mentira, também conhecido como dia das mentiras, dia das petas, dia dos tolos (de abril) ou dia dos bobos. Uma delas diz que a brincadeira surgiu na França.[carece de fontes] Desde o começo do século XVI, o Ano Novo era festejado no dia 25 de março,[carece de fontes] data que marcava a chegada da primavera.[carece de fontes] As festas duravam uma semana e terminavam no dia 1 de abril.1
Em 1564, depois da adoção do calendário gregoriano, o rei Carlos IX de França determinou que o ano novo seria comemorado no dia 1 de janeiro. Alguns franceses resistiram à mudança e continuaram a seguir o calendário antigo, pelo qual o ano iniciaria em 1 de abril. Gozadores passaram então a ridicularizá-los, a enviar presentes esquisitos econvites para festas que não existiam. Essas brincadeiras ficaram conhecidas como plaisanteries.
Em países de língua inglesa o dia da mentira costuma ser conhecido como April Fools' Day, "Dia dos Tolos (de abril)"; na Itália e na França ele é chamado respectivamentepesce d'aprile e poisson d'avril, literalmente "peixe de abril".
No Brasil, o primeiro de abril começou a ser difundido em Minas Gerais, onde circulou A Mentira, um periódico de vida efêmera, lançado em 1º de abril de 1828, com a notícia do falecimento de Dom Pedro, desmentida no dia seguinte. A Mentira saiu pela última vez em 14 de setembro de 1849, convocando todos os credores para um acerto de contas no dia 1º de abril do ano seguinte, dando como referência um local inexistente.
Na Galiza (Espanha) o dia é conhecido día dos enganos.


sexta-feira, 27 de março de 2015

Boletim 215.

ABRINDO E FECHANDO A POREIRA.
 
Quem é "tu"?
 
Só serás quando deixares de ser "tu"! Explico. Primeiro procura ser uma pessoa correta, depois educada e culta. Não construirás coisa alguma em cima da incorreção. Quando conseguires estas qualidades dedica tua vida à família e à sociedade, mas não esquece que o aprendizado é longo. Alguém colocou em minha cabeça que é tudo de dentro para fora, e é necessário crer que alguém mais habita em nosso interior. Faço a afirmação por sentir seu palpitar dentro de mim, corrigindo meus velhos passos. Sei o quanto Ele custou a amadurecer em meu interior, e sei que ao nos identificarmos chegará o momento do diálogo, num encontro perene, ou eterno.
A vida é bela, por entendermos que a beleza não é eterna, assim como a própria vida. Tudo consiste em saber que nada neste Mundo é perene, apenas serás perene, quando deixares de ser "tu".
 


quinta-feira, 26 de março de 2015

Boletim 214.

ABRINDO E FECHANDO A PORTEIRA.
 
A sorte.
 
Devemos confiar na sorte? Afirmo categoricamente que não! A sorte é um fato, mas ocorrerá ou não, sem sabermos quando, e em que circunstâncias. Poderá ser material ou espiritual. Pior que tem gente confiando cegamente nela. Tanto é verdade que as filas no Mega Sena cada vez aumentam mais e mais. Eu mesmo participo delas de quando em quando. Ainda bem que há um espaço grande neste de quando em quando. Se jogasse duas vezes por semana, minha situação financeira seria muito pior que a atual. Esqueçam da sorte, ela virá quando menos esperarmos, e de graça. Sei o que muitos dirão: "quem não joga não ganha". Pois eu afirmo que ganha, já que não só se ganha jogando, se ganha trabalhando. Um bom trabalho para vocês, e creiam, primeiramente Deus é a nossa maior sorte. 

sábado, 14 de março de 2015

Boletim 213.

ABRINDO E FECHANDO A PORTEIRA. 
 
O Tempo.
 
Há um tempo que ele escorre lento. É quando se é criança, pouco importando que tempo isto faz. Quando se é velho ele volta a escorrer novamente lento. Uma sabedoria do velho é não se preocupar com o tempo, assim como a criança ignorante desconhece o tempo. Parece que o segredo está em não ter medo de quando ele terminará. Só as crianças e os velhos não têm medo do tempo. Os jovens-adultos têm medo do tempo, não pelo seu terminar, mas por não poderem realizar seus sonhos. Então digamos que tudo gira em torno dos nossos sonhos. Criança e velho não sonha, apenas deixa o tempo passar.
 
Sei que alguém questionará o que está escrito aí acima. Peço apenas que reflitam no seguinte: "O velho que não tem medo do tempo é um velho realizado. Não deixou para trás nada que lhe perturbe a consciência, e se voltar no tal de tempo, continuará sem medo dele". 

segunda-feira, 2 de março de 2015

Boletim 212.

ABRINDO E FECHANDO A PORTEIRA.
 O Amor.
Não consigo fugir do assunto. Fiquei com vontade de olhar para os boletins anteriores e conferir quantas vezes escrevi sobre ele. Acontece que ele é o segredo do Mundo, e por segredo a gente custa muito a desvendar.
Nada deve ser feito sem amor. Principalmente aquilo que é desagradável, mas necessário fazer. Outro dia o esgoto da fazenda entupiu, e não poderia contar com mais ninguém. Era comigo mesmo. Sentei num banco para pensar por onde começar. Sabem aquela concentração do atleta antes de enfrentar o obstáculo? Nem luvas apropriadas eu possuía, e conferi as mãos se havia algum ferimento. Sabia que seria desagradável, mas fiz com amor durante uma tarde inteira. Não deu certo, e continuou entupido. Não reclamei, sem perder a calma por um momento sequer. Afirmo que tudo se deve ao fato de ter começado alimentado pelo amor. Parece fácil, mas não é. Tentem um dia.  

O Marco de Sesmaria.

Ele está plantado na esquina da Fazenda da Quinta, origem da minha família Pereira da Silva, em campos desmembrados da Légua da Flor da Praia, originária da família Centeno. Esta peça, hoje histórica, tem quatro metro de comprimento, e para ser transportada era necessário dez homens. Assim me contava meu Papai, Mário Silva Azambuja. Naquela época não havia aramados, e as propriedades eram demarcadas nos seus quatro cantos, por marcos de sesmarias, iguais ao que ostenta a foto acima.
 


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Boletim 211.

ABRINDO E FECHANDO A PORTEIRA.
 
23 de fevereiro.
1º dia do ano. O Brasil esfrega os olhos acordando para o serviço. As crianças se agitam na frente dos colégios. Os homens se assustam com o negativo de seus cartões de créditos.
Assim realmente não dá dirão alguns. Pois realmente dá, e por isso os brasileiros se diferenciam dos demais povos. Somos roubados, não trabalhamos, ganhamos poucos, nos conformamos. Este conformismo é que nos faz feliz. Ninguém arranca os cabelos da cabeça, não vai à rua protestar contra os desmandos políticos, não perde o sono pelo negativo dos cartões de créditos, e já está programando as próximas férias. Tudo passa e nada chega ao fim, pois o fim não existe. Felicidade é viver assim, solto das patas.
O Dr. Kaufmann, um médico de cirurgias pesadas na UCLA, em Los Angeles, não tira férias (assim como meu Galo Velho!). Ele diz que as 17 horas encerra o expediente indo jogar tênis, e que ninguém lhe interrompe o jogo. Está em férias permanente fazendo o que gosta (assim como meu Galo Velho!). Entretanto, duvido que seja tão feliz como o resto do povo brasileiro.
Estou chegando das minhas férias, e vocês também, portanto ao trabalho. Vocês, eu vou escrevendo a alegria da vida.
 


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Boletim 210.

ABRINDO E FECHANDO A PORTEIRA.
 
 
Férias.
 
O meu Galo Velho, que nasceu Cristino Gonçalves, nunca conheceu férias. Até mesmo ria quando lhe faziam a pergunta. Era um feliz, e estava em férias permanente fazendo o que gostava. Nunca conheceu outro rincão senão aquela costa de lagoa. Vai agora ficar sem tirar férias. Você se sentirá marginalizado. O Brasil está parado, e espero que o Mundo não esteja. Creio que até os ladrões estão em férias. Ao menos isto.
Então fui conferir meus boletins - seis boletins em janeiro, o que representa mais de um por semana, deve ser falta do que fazer. Vou entrar em férias, e certamente vocês gostarão de parar de abrir e fechar tanta porteiras, que no final dá canseira.
Até o mês que vem. Ah! Não esqueçam de tirar férias...
 
Deixo com vocês uma imagem de Colônia do Sacramento. Dias atuais é verdade, mas as paredes falam de um outro tempo. A foto é de Alex Haas.
 
 
Deixo também o final do poema, composto por 43 versos, intitulado "Colônia do Sacramento", uma verdadeira epopeia escrita por Balbino Marques da Rocha em 1965.
 
"...De tanto pisar o chão, a gente vai se adonando, e sem se notar vai se amando a terra a que se afeiçoa... A terra é como a criança, que só o carinho transforma, se abandonada é a norma, cria inço e desfigura... É assim como a criatura que vem a luz, ao calor, que só a ternura e o amor, são capazes de engendrar, desenvolve as exponências... pois são de vidro as essências onde o talento viceja...
 
Por isto que a nossa história tem um ponto sobre o Prata.. É um nó que ninguém desata. É um momento do passado que ficou cristalizado, na formação de um Império... É a área de um cemitério que nos chama na distância... É a catacumba da estância, que ficou no corredor, na esperança de um translado... Cinzas do nosso passado, pedaços de nossa História, estrelas da nossa glória, que brilham em céu distante sobre a Bacia do Prata... Há ossos que não descansam, se a compreensão não alcançam, no exílio da Pátria ingrata".
 



quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Boletim 209.

ABRINDO E FECHANDO A PORTEIRA.
O choro.
Tu choras ou não choras? Sei, vai depender do momento. Tem os chorões, como eu, que choram num namoro de borboletas. Mas conheço alguns que não choram nunca. Parece que têm um tampão nos dutos nasolacrimais. Todo mundo sabe que o excesso de lágrimas é em decorrência de emoções fortes, mas já estive ao lado de pessoas que não choraram, enquanto eu me derramava em lágrimas assistindo a mesma cena. Que coisa! Cheguei a me recriminar. Conheci um tio, irmão de minha Mamãe, que não chorava nunca, nem quando ela morreu. Ele era ateu é verdade, mas conheço muito católico praticante que também não chora. Então este negócio não tem nada a ver com Deus. Parece que tudo está em nosso "córtex pre-frontal" (fala aí Irmão-Primo Ney Artur). Devo confessar que meu bestunto, com minha parca filosofia, não chegou em lugar algum, e não vou cansar vocês com um assunto tão complexo, onde ninguém chegou.  
Vou concluir com a velhíssima frase do "conhece-te a ti mesmo". Nada adiantará conhecer o outro, se não me conhecer. Então testemunho que me sinto bem após um bom choro, e vi como sofrem aqueles que não "aprenderam" a chorar. Os psicanalistas deveriam começar por aí.

Galo Velho

Camaquã, Rio Grande do Sul, Brazil
Fundado em 05/07/1980, assim foi escrito em sua 1ª página do 1º Livro: “O que importa neste GALPÃO é que cada um saiba ser irmão do outro. Aqui terminou o patrão e o empregado; o pobre e o rico, o branco e o preto; o burro e o inteligente; o culto e o ignorante. Aqui é a INVERNADA DA AMIZADE e tem calor humano como tem calor de fogo. Nosso Galpão nem porta têm, está sempre aberto para quem buscar um abrigo. Neste Galpão os corpos cansados da lida diária encontrarão sempre um banco para descansar, e um mate amargo para a sede matar. Aqui o frio do Minuano não encontra morada, temos toda a Sant’Anna irmanada. A cada nascer de uma madrugada há de encontrar alguém aquentando fogo, buscando nas cinzas do passado, o Galo Velho que será, quando partir para a Invernada do Esquecimento. Ninguém será esquecido, se passar nesta vida vivendo como o nosso “Galo Velho” viveu, a todos querendo, sem nunca ter o mal no coração.”